Textos sobre Temperamento de José Régio

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Textos de temperamento de José Régio. Leia este e outros textos de José Régio em Poetris.

Originalidade Verdadeira e Originalidade Falseada

Em Arte, Ă© vivo tudo o que Ă© original. É original tudo o que provĂ©m da parte mais virgem, mais verdadeira e mais Ă­ntima duma personalidade artĂ­stica. A primeira condição duma obra viva Ă© pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista Ă©, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos demais, (artistas ou nĂŁo) certa sinonĂ­mia nasceu entre o adjectivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjectivo excĂŞntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como Ă© falsa toda a originalidade calculada e astuciosa.
Eis como tambĂ©m pertence Ă  literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade prĂłpria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas – mas sĂł quando naturais a um dado temperamento artĂ­stico. Sobre outras qualidades, o produto desses temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afectadas, semelhantes qualidades nĂŁo passarĂŁo dum truque literário.

Literatura Eterna ou Temporal

Penso eu que a literatura pode responder a interrogações, pode tentar responder-lhes, pode simplesmente pô-las e pode nem sequer pô-las. Há a contar com a variedade dos temperamentos literários. Coisa difícil, sei-o por experiência própria, embora deva estar na base de qualquer atitude crítica. Aceitemos, porém, que toda a grande literatura põe interrogações, e lhes procura resposta. Pergunto: Não poderá admitir-se que seja antes às interrogações eternas do homem eterno que a literatura procura responder? Não envelhecerá uma obra de arte precisamente na medida em que só responde às inquietações de uma época? E não perdurará na medida em que, através, ou não, de respostas provisórias a interrogações provisórias, sugere uma resposta eterna a interrogações eternas, exprime inquietações eternas embora de forma pessoal?
Entendamo-nos: Há quem, no homem, antes considere o homem eterno, e quem antes considere o homem temporal. O leitor compreende que chamo homem eterno ao que, no homem, permanece atravĂ©s da diversidade das Ă©pocas, dos meios, das circunstâncias histĂłricas, das modalidades individuais; e que chamo homem temporal ao que nele depende destas coisas. Evidentemente, o homem que atravĂ©s da literatura se nos revela Ă©, ao mesmo tempo, um e outro: o temporal e o eterno. Mas a questĂŁo Ă© esta: Será antes pelo que nos revela do homem temporal que uma obra dura por humana –

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