O Encanto da Vida
Todas as noites acordado atĂ© desoras, Ă espera da Ășltima cena de pancadaria num jogo de futebol, do Ășltimo insulto num debate parlamentar, do Ășltimo discurso demagĂłgico num comĂcio eleitoral, da Ășltima pirueta dum cabotino entrevistado, da Ășltima farsa no palco internacional. CrucificaçÔes masoquistas, que a prudĂȘncia desaconselha e a imprudĂȘncia impĂ”e. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.
Mas nĂŁo hĂĄ perspicĂĄcia, nem constĂąncia de atenção capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A violĂȘncia, o facciosismo, a ambição de poder, a crueldade e o exibicionismo nĂŁo tĂȘm limites. Felizmente que a abnegação, a generosidade e o altruĂsmo tambĂ©m nĂŁo. E o encanto da vida Ă© precisamente esse: nenhum excesso nela ser previsĂvel. Nem no mal nem no bem. E nĂŁo me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, Ă luz dos acontecimentos.
Quando julgo que estou devidamente informado sobre o amor, sobre o Ăłdio, sobre a santidade, sobre a perfĂdia, sobre as virtudes e os defeitos humanos, acabo por concluir que soletro ainda o ĂĄ-bĂȘ-cĂȘ da realidade. Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem. Hoje fizeram-me a revelação surpreendente de que um avarento meu conhecido,
Textos sobre Ăltimos de Miguel Torga
4 resultadosA Minha Luta
A minha luta Ă© para encontrar o centro, o nĂșcleo de toda uma infinidade de justificaçÔes, que superficialmente parecem satisfazer-me e sĂŁo, afinal, folhas caducas do meu tronco. Determinar, numa palavra, que causa Ășltima me conduz, que força polariza os meus actos. Mas estou longe dessa descoberta. Eliminei o divino, porque era divino e eu sou humano; superei o pecado, porque viver sem pecado era um absurdo moral; e consegui perceber que a vida nĂŁo Ă© trĂĄgica por estar balizada pelo nascimento e pela morte, que sĂŁo condiçÔes de existĂȘncia e nĂŁo condenaçÔes dela. Contudo, nada resolvi. Continua a escapar-me das mĂŁos a sombra de um fantasma paradoxal. Uma sombra que Ă© uma pura alucinação dos sentidos, que sabem que apenas o real lhes merece crĂ©dito, e, sobretudo, da razĂŁo, que sabe que a Ășnica consciĂȘncia do mundo Ă© ela prĂłpria, princĂpio e fim de si mesma.
Nada Vale Nada
Aqui tenho Ă mesa de cabeceira o Ășltimo livro ainda a cheirar Ă tinta da tipografia. NĂŁo hĂĄ dĂșvida nenhuma que o concebi, que o realizei, e que, depois disso, com os magros vintĂ©ns que vou ganhando por estes montes, consegui pĂŽ-lo em letra redonda â a forma material mĂĄxima que se pode dar a um escrito. E, contudo, olho esta realidade que eu tirei do nada, que bem ou mal arranquei de mim, com o mesmo desĂąnimo com que olho uma teia de aranha. E nĂŁo Ă© por saber de antemĂŁo que o livro vai ser abocanhado ou ignorado. NĂŁo obstante a lei natural que aconselha a que nĂŁo haja homem sem homem, Ă© preciso que a santa cegueira do artista lhe dĂȘ a força bastante para, em Ășltima anĂĄlise, ficar sĂł e confiante. Ora eu tenho, como artista, essa cegueira. O meu desalento vem duma voz negativa que me acompanha desde o berço e que nas piores horas diz isto: Nada, em absoluto, vale nada.
Uma DiscussĂŁo nesta Santa Terra Portuguesa Acaba sempre aos Berros
NĂŁo hĂĄ maneira. Por mais boa vontade que tenham todos, uma discussĂŁo nesta santa terra portuguesa acaba sempre aos berros e aos insultos. NinguĂ©m Ă© capaz de expor as suas razĂ”es sem a convicção de que diz a Ășltima palavra. E a desgraça Ă© que a esta presunção do espĂrito se junta ainda a nossa velha tendĂȘncia apostĂłlica, que onde sente um nĂĄufrago tem de o salvar. O resultado Ă© tornar-se impossĂvel qualquer colaboração nas ideias, o alargamento da cultura e de gosto, e dar-se uma trĂĄgica concentração de tudo na mesquinhez do individual.