O MĂ©todo Ă© NecessĂĄrio para a Procura da Verdade
Os mortais sĂŁo dominados por uma curiosidade tĂŁo cega que, muitas vezes, envenenam o espĂrito por caminhos desconhecidos, sem qualquer esperança razoĂĄvel, mas unicamente para se arriscarem a encontrar o que procuram: Ă© como se alguĂ©m, incendiado pelo desejo tĂŁo estĂșpido de encontrar um tesouro, vagueasse sem cessar pelas praças pĂșblicas para ver se, casualmente, encontrava algum perdido por um transeunte. (…) nĂŁo nego que tenham por vezes muita sorte nos seus caminhos errantes e encontrem alguma verdade; contudo, nĂŁo estou de acordo que sejam mais competentes, mas apenas mais afortunados. Ora, vale mais nunca pensar em procurar a verdade de alguma coisa que fazĂȘ-lo sem mĂ©todo: Ă© certĂssimo, pois, que os estudos feitos desordenadamente e as meditaçÔes confusas obscurecem a luz natural e cegam os espĂritos. Quem se acostuma a andar assim nas trevas enfraquece de tal modo a acuidade do olhar que, depois, nĂŁo pode suportar a luz do pleno dia.
Ă a experiĂȘncia que o diz: vemos muitissimas vezes os que nunca se dedicaram Ă s letras julgar o que se lhes depara com muito maior solidez e clareza do que aqueles que sempre frequentaram as escolas. Entendo por mĂ©todo regras certas e fĂĄceis, que permitem a quem exactamente as observar nunca tomar por verdadeiro algo de falso,
Textos sobre Vales de René Descartes
2 resultadosO Verdadeiro e o Falso CiĂșme
O ciĂșme Ă© uma espĂ©cie de temor, que se relaciona com o desejo de conservarmos a posse de algum bem; e nĂŁo provĂ©m tanto da força das razĂ”es que levam a julgar que podemos perdĂȘ-lo, como da grande estima que temos por ele, a qual nos leva a examinar atĂ© os menores motivos de suspeita e a tomĂĄ-los por razĂ”es muito dignas de consideração.
E como devemos empenhar-nos mais em conservar os bens que sĂŁo muito grandes do que os que sĂŁo menores, em algumas ocasiĂ”es essa paixĂŁo pode ser justa e honesta. Assim, por exemplo, um chefe de exĂ©rcito que defende uma praça de grande importĂŁncia tem o direito de ser zeloso dela, isto Ă©, de suspeitar de todos os meios pelos quais ela poderia ser assaltada de surpresa; e uma mulher honesta nĂŁo Ă© censurada por ser zelosa de sua honra, isto Ă©, por nĂŁo apenas abster-se de agir mal como tambĂ©m evitar atĂ© os menores motivos de maledicĂȘncia.
Mas zombamos de um avarento quando ele Ă© ciumento do seu tesouro, isto Ă©, quando o devora com os olhos e nunca quer afastar-se dele, com medo que ele lhe seja furtado; pois o dinheiro nĂŁo vale o trabalho de ser guardado com tanto cuidado.