Olhar e Chorar
Notável criatura sĂŁo os olhos! Admirável instrumento da natureza; prodigioso artifĂcio da ProvidĂŞncia! Eles sĂŁo a primeira origem da culpa; eles a primeira fonte da Graça. SĂŁo os olhos duas vĂboras, metidas em duas covas, e que a tentação pĂ´s o veneno, e a contrição a triaga. SĂŁo duas setas com que o DemĂłnio se arma para nos ferir e perder; e sĂŁo dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar. Todos os sentidos do homem tĂŞm um sĂł ofĂcio; sĂł os olhos tĂŞm dois. O Ouvido ouve, o Gosto gosta, o Olfacto cheira, o Tacto apalpa, sĂł os olhos tĂŞm dois ofĂcios: Ver e Chorar. Estes serĂŁo os dois pĂłlos do nosso discurso.
NinguĂ©m haverá (se tem entendimento) que nĂŁo deseje saber por que ajuntou a Natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista; e por que uniu a mesma potĂŞncia o ofĂcio de chorar, e o de ver? O ver Ă© a acção mais alegre; o chorar a mais triste. Sem ver, como dizia Tobias, nĂŁo há gosto, porque o sabor de todos os gostos Ă© o ver; pelo contrário, o chorar Ă© o estilado da dor, o sangue da alma,
Passagens sobre VĂboras
13 resultadosComparo a mulher com a pantera, porque se lhe assemelha em tudo. Nas aves, a sua análoga Ă© a perdiz, e nos rĂ©pteis a vĂbora.
O Meu Amor
[Citações da entrevista do jornal Público a Miguel Esteves Cardoso (MEC) e Maria João Pinheiro (MJ), no dia 21 de Abril de 2013]
MEC – Ela é sempre maravilhosa. Vivia muito desconfiado nos, sei lá, nos primeiros meses e anos. Desconfiava de que ela tivesse uma Maria João verdadeira que não fosse assim mágica. Que fosse prática e muito diferente. Que houvesse – há sempre – uma pessoa escondida dentro dela. Mas não. Não há.
(…)
MJ – O Miguel é uma pessoa. Uma pessoa maravilhosa. Um tesouro.
(…)
MJ – Foi conhecer a pessoa mais generosa, perfeita, bondosa. A alma mais pura.
MEC – DevĂamos dar mais entrevistas. Eu nunca ouço isto. Estou inchado. Se achavas isso antes, por que Ă© que nĂŁo disseste?
(…)
MEC – Sim. E fiquei como nunca fiquei antes. Fiquei assim toinggg. Parecia extremamente feliz. E eu: «Ah!!» E luminosa. Risonha. Como se fosse um prémio. Sabe?, um prémio. «Aqui está a tua sorte.» Senti uma ausência de dúvida. Eh pá. Só queria que fosse minha.
(…)
MEC – É a mulher mais bonita que alguma vez vi. Era linda de morrer e podia ser uma vĂbora.
A vĂbora da vaidade literária infere por vezes mordeduras muito fundas e atĂ© incuráveis, particularmente aos homens limitados.
XLIII
Quem Ă©s tu? (ai de mim!) eu reclinado
No seio de uma vĂbora! Ah tirana!
Como entre as garras de uma tigre hircana
Me encontro de repente sufocado!NĂŁo era essa, que eu tinha posta ao lado,
Da minha Nise a imagem soberana?
Não era… mas que digo! ela me engana:
Sim, que eu a vejo ainda no mesmo estado:Pois como no letargo a fantasia
TĂŁo cruel ma pintou, tĂŁo inconstante,
Que a vi… ? mas nada vi; que eu nada cria.Foi sonho; foi quimera; a um peito amante
Amor nĂŁo deu favores um sĂł dia,
Que a sombra de um tormento os nĂŁo quebrante.
Uma vĂbora envenena um homem, mas um homem sozinho arrasa uma capital. Os grandes monstros nĂŁo chegam verdadeiramente na Ă©poca secundária; aparecem na Ăşltima, com o homem. Ao pĂ© de um NapoleĂŁo, um megalossauro Ă© uma formiga.
VĂbora
Como a vĂbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.
A Negra FĂşria CiĂşme
Morre a luz, abafa os ares
Horrendo, espesso negrume,
Apenas surge do Averno
A negra fĂşria CiĂşme.Sobre um sĂłlio cor da noite
Jaz dos Infernos o Nurne,
E a seus pés tragando brasas
A negra fĂşria CiĂşme.Crespas vĂboras penteia,
Dos olhos dardeja lume,
Respira veneno e peste
A negra fĂşria CiĂşme.Arrancando Ă Morte a fouce
De buĂdo, ervado gume,
Vem retalhar corações
A negra fĂşria CiĂşme.Ao cruel sĂłcio de Amor
Escapar ninguém presume,
Porque a tudo as garras lança
A negra fĂşria CiĂşme.Todos os males do Inferno
Em si guarda, em si resume
O mais horrĂvel dos monstros,
A negra fĂşria CiĂşme.Amor inda Ă© mais suave,
Que das rosas o perfume,
Mas envenena-lhe as graças
A negra fĂşria CiĂşme.Nas asas de Amor voamos
Do prazer ao áureo cume,
Porém de lá nos arroja
A negra fúria Ciúme.Do férreo cálix da Morte
Prova o funesto azedume
Aquele a quem ferve n’alma
A negra fĂşria CiĂşme.
Os inimigos que mais temo a Portugal sĂŁo soberba e ingratidĂŁo, vĂcios tĂŁo naturais da prĂłspera fortuna que, como filhos da vĂbora, juntamente nascem dela e a corrompem.
A Carne é Crápula
A carne é crápula
sob o olho cego
do desejo.A carne Ă© trĂ´pega
se fala sob o pĂŞlo
de outro desejo alheio.A carne Ă© trĂŞmula
e fracta.
Crina de nervos,
veneno de vĂbora,
a carne Ă© Ă©gua
sob o cabresto
de seus incestos
sem freios.Fálica e côncava,
intrépida e férvida,
a carne é estrábica
nos entreveros
do sexo
com seus desacertos
conexos.Sob o olho
sem mácula e cego,
a carne é crápula
nos arpejos
indefesos
de seus perversos
desejos.
O Homem Congrega Todas as Espécies de Animais
Há tĂŁo diversas espĂ©cies de homens como há diversas espĂ©cies de animais, e os homens sĂŁo, em relação aos outros homens, o que as diferentes espĂ©cies de animais sĂŁo entre si e em relação umas Ă s outras. Quantos homens nĂŁo vivem do sangue e da vida dos inocentes, uns como tigres, sempre ferozes e sempre cruĂ©is, outros como leões, mantendo alguma aparĂŞncia de generosidade, outros como ursos grosseiros e ávidos, outros como lobos arrebatadores e impiedosos, outros ainda como raposas, que vivem de habilidades e cujo ofĂcio Ă© enganar!
Quantos homens nĂŁo se parecem com os cĂŁes! Destroem a sua espĂ©cie; caçam para o prazer de quem os alimenta; uns andam sempre atrás do dono; outros guardam-lhes a casa. Há lebrĂ©us de trela que vivem do seu mĂ©rito, que se destinam Ă guerra e possuem uma coragem cheia de nobreza, mas há tambĂ©m dogues irascĂveis, cuja Ăşnica qualidade Ă© a fĂşria; há cĂŁes mais ou menos inĂşteis, que ladram frequentemente e por vezes mordem, e há atĂ© cĂŁes de jardineiro. Há macacos e macacas que agradam pelas suas maneiras, que tĂŞm espĂrito e que fazem sempre mal. Há pavões que sĂł tĂŞm beleza, que desagradam pelo seu canto e que destroem os lugares que habitam.
Adeus!
Adeus! para sempre adeus!
Vai-te, oh! vai-te, que nesta hora
Sinto a justiça dos céus
Esmagar-me a alma que chora.
Choro porque nĂŁo te amei,
Choro o amor que me tiveste;
O que eu perco, bem no sei,
Mas tu… tu nada perdeste;
Que este mau coração meu
Nos secretos escaninhos
Tem venenos tĂŁo daninhos
Que o seu poder só sei eu.Oh! vai… para sempre adeus!
Vai, que há justiça nos céus.
Sinto gerar na peçonha
Do ulcerado coração
Essa vĂbora medonha
Que por seu fatal condĂŁo
Há-de rasgá-lo ao nascer:
Há-de sim, serás vingada,
E o meu castigo há-de ser
CiĂşme de ver-te amada,
Remorso de te perder.Vai-te, oh! vai-te, longe, embora,
Que sou eu capaz agora
De te amar – Ai! se eu te amasse!
Vê se no árido pragal
Deste peito se ateasse
De amor o incĂŞndio fatal!
Mais negro e feio no inferno
NĂŁo chameia o fogo eterno.
Que sim? Que antes isso? – Ai, triste!
NĂŁo sabes o que pediste.
A Vida Ă© LĂquida
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mĂłrula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de vĂbora.
Como-a no livro da lĂngua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha pĂşmblea, me casaco rosso
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, gĂłticas, altas de corpo e copos.
A vida Ă© crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tĂŁo generosa e mĂtica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida Ă© liquĂda.TambĂ©m sĂŁo cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos Ă mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraĂso. O sinistro das horas
Vai se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.