É vergonhoso corrigir os vĂcios imitando-os.
Passagens sobre VĂcio
362 resultadosAssim como o homem carrega o peso do prĂłprio corpo sem o sentir, mas sente o de qualquer outro corpo que quer mover, tambĂ©m nĂŁo nota os prĂłprios defeitos e vĂcios, mas sĂł os dos outros.
Triunfo Supremo
Quem anda pelas lágrimas perdido,
Sonâmbulo dos trágicoa flagelos,
É quem deixou para sempre esquecido
O mundo e os fúteis ouropéis mais belos!É quem ficou no mundo redimido,
Expurgado dos vĂcios mais singelos
E disse a tudo o adeus indefinido
E desprendeu-se dos carnais anelos!É quem entrou por todas as batalhas
As mãos e os pés e o flanco ensangüentado,
Amortalhado em todas as mortalhas.Quem florestas e mares foi rasgando
E entre raios, pedradas e metralhas,
Ficou gemendo mas ficou sonhando!
A Tranquilidade da Alma não se Alcança em Viagens
Pensas que sĂł a ti isso sucedeu; admiras-te, como se fosse um caso raro, de apĂłs uma tĂŁo grande viagem e uma tĂŁo grande variedade de locais visitados nĂŁo teres conseguido dissipar essa tristeza que te pesa na alma!? Deves Ă© mudar de alma, nĂŁo de clima. Ainda que atravesses a vastidĂŁo do mar, ainda que, como diz o nosso VergĂlio, as costas, as cidades desapareçam no horizonte, os teus vĂcios seguir-te-ĂŁo onde quer que tu vás. Do mesmo se queixou um dia alguĂ©m a SĂłcrates: «PorquĂŞ admirar-te da inutilidade das tuas viagens,» – foi a resposta, – «se para todo o lado levas a mesma disposição? A causa que te aflige Ă© exactamente a mesma que te leva a partir!» De facto, em que pode ajudar a mudança de local, ou o conhecimento de novas paisagens e cidades? Toda essa agitação carece de sentido. Andares de um lado para o outro nĂŁo te ajuda em nada, porque andas sempre na tua prĂłpria companhia. Tens de alijar o peso que tens na alma; antes disso nĂŁo há terra alguma que te possa dar prazer!
Temos de viver com essa convicção: não nascemos destinados a nenhum lugar particular, a nossa pátria é o mundo inteiro!
A gente pensa nĂŁo ter vĂcios quando nĂŁo tem os dos outros.
Censuram-se severamente defeitos Ă virtude, ao passo que se nĂŁo poupa indulgĂŞncia para as qualidades do vĂcio.
O Excesso de Conhecimento sem Discernimento
Herdamos conhecimentos e invenções de todos os sĂ©culos; ficamos portanto mais ricos em bens do espĂrito: isso nĂŁo nos pode ser contestado sem injustiça. Mas estarĂamos nĂłs prĂłprios enganados se confundĂssemos essa riqueza herdada e de emprĂ©stimo com o gĂ©nio que a dá. Quantos desses conhecimentos adquiridos sĂŁo estĂ©reis para nĂłs! Estranhos no nosso espĂrito onde nĂŁo tiveram origem, acontece muitas vezes que eles confundem o nosso juĂzo muito mais do que o esclarecem. Arcamos sob o peso de tantas ideias, como aqueles estados que sucumbem por excesso de conquistas e em que a opulĂŞncia introduz novos vĂcios e desordens mais terrĂveis; porque pouca gente Ă© capaz de fazer bom uso do espĂrito alheio.
(…) O efeito das opiniões multiplicadas alĂ©m das forças do espĂrito Ă© produzir contradições e abalar a certeza dos melhores princĂpios. Os objectos apresentados sob um nĂşmero excessivo de faces nĂŁo se podem organizar, nem desenvolver, nem pintar distintamente na imaginação dos homens. Incapazes de conciliar todas as suas ideias, tomam os diversos lados de uma mesma coisa como contradições da sua natureza. Vários nĂŁo querem comparar a opiniĂŁo dos filĂłsofos. NĂŁo examinam se na oposição dos seus princĂpios, alguĂ©m fez pender a balança para o seu lado;
O Carácter não se Revela no muito Consumir, mas no muito Criar
A primeira regra do carácter Ă© a unidade – ou, nas palavras de Goethe, «ser um todo ou juntar-se a um todo». E a segunda, avançar, nunca recuar. Essas duas regras traçam uma linha de desenvolvimento em ascensĂŁo, da qual o homem de valor pode desviar-se numa certa medida, nĂŁo tanto, porĂ©m, que os desvios enublem a regra. No primeiro grupo de instintos, por exemplo, poderá ser admitido o da limpeza, embora seja instinto com raĂzes no impulso negativo da repugnância. «Na criança – diz Nietzsche – o senso da limpeza deve ser estimulado vivamente, porque mais tarde florirá sobre aspectos novos atĂ© Ă s alturas da virtude.» O asseio está prĂłximo da devoção; e como Ă©, se nĂŁo há deuses? Mas nĂŁo queremos chegar ao ascetismo de um banho frio perpĂ©tuo, nem que nos tornemos Apolos do cabelo bem penteado, nem vĂtima das manicuras; e sentiremos sempre uma secreta inveja daquele estadista teĂłlogo que nĂŁo deixava a sua ortodoxia interferir no seu apetite.
A mesma atitude tomaremos em relação Ă pugnacidade e Ă sua espora, o orgulho; temos aqui virtudes, nĂŁo vĂcios – que podamos para que se desenvolvam melhor. Nada de impetuosidade briguenta e de presunção; a presunção Ă© o orgulho da vitĂłria apenas imaginária,
A felicidade nĂŁo reside no vĂcio nem na virtude, mas sim na maneira como percebemos um e outro.
A indulgĂŞncia com o vĂcio Ă© uma conspiração contra a virtude.
O vĂcio Ă© o mal que fazemos sem prazer.
A Educação das Crianças
A educação das crianças como conspiração da parte dos adultos. AtraĂmo-las dos seus livres rompantes para as nossas moradas estreitas com ilusões em que talvez acreditemos, mas nĂŁo no sentido que pretendemos. (Quem nĂŁo gostaria de ser nobre? Fechar a porta.)
O valor do acto de dar rĂ©deas livres aos nossos vĂcios consiste em que eles se erguem Ă vista com toda a sua força e todo o seu tamanho, mesmo que, na excitação da indulgĂŞncia, sĂł tenhamos deles um leve vislumbre. NĂŁo se aprende a ser marinheiro com exercĂcios numa poça de água, embora demasiados exercĂcios nessa poça de água nos possam provavelmente tornar incapazes de ser marinheiros.
A virtude diviniza-nos, o vĂcio embrutece-nos.
As virtudes sĂŁo econĂłmicas, mas os vĂcios dispendiosos.
As Verdadeiras Necessidades nĂŁo TĂŞm Gostos
Nenhum conselho me parece mais Ăştil para te dar do que este (e que nunca Ă© demais repetir!): limita sempre tudo aos desejos naturais que tu podes satisfazer com pouca ou nenhuma despesa, evitando, contudo, confundir vĂcios com desejos. Porventura te interessa saber em que tipo de mesa, em que baixela de prata te Ă© servida a refeição, ou se os escravos te servem com bom ritmo e solicitude? A natureza sĂł necessita de uma coisa: a comida. (…) A fome dispensa pretensões, apenas reclama ser saciada, sem cuidar grandemente com quĂŞ. O triste prazer da gula vive atormentado na ânsia de continuar com vontade de comer mesmo quando saciado, de buscar o modo como atulhar, e nĂŁo apenas encher o estĂ´mago, de achar maneira de excitar a sede extinta logo Ă primeira golada! Tem, por isso toda a razĂŁo Horácio quando diz que a sede nĂŁo se interessa pela espĂ©cie de copo ou pela elegância da mĂŁo que o serve.
Se achas que tĂŞm para ti muita importância os cabelos encaracolados do escravo, ou a transparĂŞncia do copo que te põe Ă frente, Ă© porque nĂŁo estás com sede. Entre outros benefĂcios que devemos Ă natureza conta-se este,
A embriaguez nĂŁo cria vĂcios. Apenas põe-nos em evidĂŞncia.
Os prĂłprios vĂcios podem engendrar o orgulho desmedido ou a humildade levada ao exagero.
A Análise dos Sentimentos
Os sentimentos experimem a felicidade, fazem sorrir. A análise dos sentimentos exprime a felicidade, pondo de parte toda a personalidade; faz sorrir. Aqueles elevam a alma, dependentemente do espaço, do tempo, atĂ© Ă concepção da humanidade considerada em si mesma, nos seus membros ilustres! Esta eleva a alma, independentemete do tempo, do espaço, atĂ© Ă concepção da humanidade considerada na sua mais alta expressĂŁo, a vontade! Aqueles tratam dos vĂcios, das virtudes; esta trata apenas das virtudes. Os sentimentos nĂŁo conhecem a ordem da sua marcha. A análise dos sentimentos ensina a fazĂŞ-la conhecer, aumenta o vigor dos sentimentos. Com eles, tudo Ă© incerteza. SĂŁo a expressĂŁo da felicidade e da infelicidade, dois extremos. Com ela, tudo Ă© certeza. Ela Ă© a expressĂŁo daquela felicidade que resulta, em determinado momento, de nos sabermos conter no meio das paixões boas ou más.
Ela utiliza a sua calma para fundir a descrição dessas paixões num princĂpio que circula atravĂ©s das páginas: a nĂŁo-existĂŞncia do mal. Os sentimentos choram quando lhes Ă© preciso, tanto como quando lhes nĂŁo Ă©. A análise dos sentimentos nĂŁo chora. Possui uma sensibilidade latente, que apanha desprevenido, arrasta por cima das misĂ©rias, ensina a dispensar guia, fornece uma arma de combate.
Amo-te Sempre
Amo-te sempre
com um pouco de barco e de vento
com uma humildade de mar Ă tua volta
dentro do meu corpo; com o desespero
de ser tempo;com um pouco de sol e uma fonte
adormecida na ternura.Merecer este minuto de palavras habitando
o que há sem fim no teu retrato;
Este mesmo minuto em que chegam e partem navios
– nesta mesma cidade deste
minuto, desta lĂngua, deste
romance diário dos teus olhos –(e chegarão com armas? refugiados? trigo?
partirão com noivas? missionários? guerras? discursos?)Merecer a densa beleza do teu corpo
que tem água e ternura, células, penumbra,
que dormiu no berço, dormiu na memória,
que teve soluços, febre, e absurdos desejos
maiores que os braços,merecer os dias subindo das florestas – e vêm
banhar-se, lentos, nos teus olhos…Merecer a Igreja, o ajoelhar das palavras,
entre estes cinemas visitando, em duas horas, a alma,
estes eléctricos parando atrás do infinito
para subirem os namorados, a viĂşva, o cobrador da luz, a
costureira
entre estes homens que ganham dinheiro,
Os vĂcios vĂŞm como passageiros, visitam-nos como hĂłspedes e ficam como amos.