A injustiça atrai a injustiça, a violĂȘncia gera a violĂȘncia.
Passagens sobre ViolĂȘncia
202 resultadosHomens que querem ajudar as mulheres em nossa luta por liberdade e justiça deviam compreender que nĂŁo Ă© extraordinariamente importante para nĂłs que eles aprendam a chorar; Ă© importante para nĂłs que eles parem os crimes de violĂȘncia contra nĂłs.
A Exaltação da Pele
Hoje quero com a violĂȘncia da dĂĄdiva interdita.
Sem lĂrios e sem lagos
e sem o gesto vago
desprendido da mĂŁo que um sonho agita.
Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fĂȘmea metade mar como as sereias.
Todo o PortuguĂȘs Popular Ă© um Reformador Impaciente
Todo o portuguĂȘs popular Ă© um reformador impaciente. NĂŁo hĂĄ atitude que nĂŁo avalie, serviço que nĂŁo comente, governança que nĂŁo desconheça, ingratidĂŁo que nĂŁo ouse, para maior desembaraço das suas aptidĂ”es. Estas podem nĂŁo ser famosas, mas constituem a soma dum profundo sentido de perseverança e de sacrifĂcio. Quando o mundo se super-humanizar, lĂĄ estarĂĄ o portuguĂȘs para achar natural o que acontece, e portanto necessitado de reforma, e por conseguinte de diĂĄlogo. O Ășltimo homem sobre a terra terĂĄ de ser um portuguĂȘs que duvida do que Ă© natural e que se indisciplina perante a consumação dos sĂ©culos.
HĂĄ raças mais dinĂąmicas, outras mais brilhantes; mas nenhuma outra possui o segredo da importunidade que estimula, desassossega, altera, contradiz e, no entanto, nĂŁo chega a ser violĂȘncia. Dizei-lhe que a vida Ă© um dom, que o trabalho Ă© uma honra, que o homem Ă© uma criação maravilhosa – e ele, ou vos acha hipĂłcritas, ou ocos e delirantes. Os princĂpios «a piori» nĂŁo lhe merecem respeito, e prefere analisar os seus pequenos problemas quotidianos, a obstinar-se na seriedade ou atrofiar-se na eloquĂȘncia que Ă© a mĂŁe da burla. Ele sabe que a pior injĂșria Ă© enobrecer a desgraça.
A arma mais poderosa nĂŁo Ă© a violĂȘncia mas falar com as pessoas.
Ode Triunfal
à dolorosa luz das grandes lùmpadas eléctricas da fåbrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.Ă rodas, Ăł engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fĂșria!
Em fĂșria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
Tenho os lĂĄbios secos, Ăł grandes ruĂdos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensaçÔes,
Com um excesso contemporĂąneo de vĂłs, Ăł mĂĄquinas!Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical –
Grandes trĂłpicos humanos de ferro e fogo e força –
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente Ă© todo o passado e todo o futuro
E hĂĄ PlatĂŁo e VirgĂlio dentro das mĂĄquinas e das luzes elĂ©ctricas
SĂł porque houve outrora e foram humanos VirgĂlio e PlatĂŁo,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
O Encanto da Vida
Todas as noites acordado atĂ© desoras, Ă espera da Ășltima cena de pancadaria num jogo de futebol, do Ășltimo insulto num debate parlamentar, do Ășltimo discurso demagĂłgico num comĂcio eleitoral, da Ășltima pirueta dum cabotino entrevistado, da Ășltima farsa no palco internacional. CrucificaçÔes masoquistas, que a prudĂȘncia desaconselha e a imprudĂȘncia impĂ”e. Vou deste mundo farto de o conhecer e faminto de o descobrir.
Mas nĂŁo hĂĄ perspicĂĄcia, nem constĂąncia de atenção capazes de lhe prefigurar os imprevistos. O que acontece hoje excede sempre o que sucedeu ontem. A violĂȘncia, o facciosismo, a ambição de poder, a crueldade e o exibicionismo nĂŁo tĂȘm limites. Felizmente que a abnegação, a generosidade e o altruĂsmo tambĂ©m nĂŁo. E o encanto da vida Ă© precisamente esse: nenhum excesso nela ser previsĂvel. Nem no mal nem no bem. E nĂŁo me canso de o verificar, de surpresa em surpresa, Ă luz dos acontecimentos.
Quando julgo que estou devidamente informado sobre o amor, sobre o Ăłdio, sobre a santidade, sobre a perfĂdia, sobre as virtudes e os defeitos humanos, acabo por concluir que soletro ainda o ĂĄ-bĂȘ-cĂȘ da realidade. Cabeçudo como sou, teimo na aprendizagem. Hoje fizeram-me a revelação surpreendente de que um avarento meu conhecido,
XIV
Quem deixa o trato pastoril amado
Pela ingrata, civil correspondĂȘncia,
Ou desconhece o rosto da violĂȘncia,
Ou do retiro a paz nĂŁo tem provado.Que bem Ă© ver nos campos transladado
No gĂȘnio do pastor, o da inocĂȘncia!
E que mal Ă© no trato, e na aparĂȘncia
Ver sempre o cortesĂŁo dissimulado!Ali respira amor sinceridade;
Aqui sempre a traição seu rosto encobre;
Um só trata a mentira, outro a verdade.Ali não hå fortuna, que soçobre;
Aqui quanto se observa, Ă© variedade:
Oh ventura do rico! Oh bem do pobre!
Virtude Representa Muito Mais que Bondade
Parece-me que a virtude Ă© coisa diferente e mais nobre do que as inclinaçÔes para a bondade que nascem em nĂłs. As almas bem ajustadas por si mesmas e bem nascidas seguem o mesmo andamento e apresentam nas suas açÔes a mesma aparĂȘncia que as virtuosas. PorĂ©m a virtude significa nĂŁo sei quĂȘ de maior e mais activo do que, por uma Ăndole favorecida, deixar-se conduzir docemente e tranquilamente na esteira da razĂŁo. Aquele que com uma doçura e complacĂȘncia naturais menosprezasse as ofensas recebidas faria coisa mui bela e digna de louvor; mas aquele que, espicaçado e ultrajado atĂ© o Ăąmago por uma ofensa, se armasse com as armas da razĂŁo contra o furioÂso apetite de vingança e apĂłs um grande conflito finalmenÂte o dominasse, sem a menor dĂșvida seria muito mais. Aquele agiria bem, e este virtuosamente: uma acção poder-Âse-ia dizer bondade; a outra, virtude, pois parece que o nome de virtude pressupĂ”e dificuldade e oposição, e que ela nĂŁo pode se exercer sem combate. Talvez seja por isso que chamamos Deus de bom, forte e liberal, e justo; mas nĂŁo O chamamos de virtuoso: Os Seus actos sĂŁo todos natuÂrais e sem esforço.
Metelo, o Ășnico de todos os senadores romanos a se ter proposto,
O Amor-PrĂłprio como Fonte de Todos os Males
Ă preciso nĂŁo confundir o amor-prĂłprio e o amor de si mesmo, duas paixĂ”es muito diferentes pela sua natureza e pelos seus efeitos. O amor de si mesmo Ă© um sentimento natural que leva todo o animal a velar pela sua prĂłpria conservação, e que, dirigido no homem pela razĂŁo e modificado pela piedade, produz a humanidade e a virtude. O amor-prĂłprio Ă© apenas um sentimento relativo, factĂcio e nascido na sociedade, que leva cada indivĂduo a fazer mais caso de si do que de qualquer outro, que inspira aos homens todos os males que se fazem mutuamente, e que Ă© a verdadeira fonte da honra.
Bem entendido isso, repito que, no nosso estado primitivo, no verdadeiro estado de natureza, o amor-prĂłprio nĂŁo existe; porque, cada homem em particular olhando a si mesmo como o Ășnico espectador que o observa, como o Ășnico ser no universo que toma interesse por ele, como o Ășnico juiz do seu prĂłprio mĂ©rito, nĂŁo Ă© possĂvel que um sentimento que teve origem em comparaçÔes que ele nĂŁo Ă© capaz de fazer possa germinar na sua alma.
Pela mesma razão, esse homem não poderia ter ódio nem desejo de vingança, paixÔes que só podem nascer da opinião de alguma ofensa recebida.
A violĂȘncia Ă© o Ășltimo refĂșgio do incompetente.
Esquecer os deveres bĂĄsicos de solidariedade Ă© uma violĂȘncia, uma cobardia escondida em nome do bom-senso.
TĂŁo Grande Dor
“TĂŁo grande dor para tĂŁo pequeno povo” palavras de um timorense Ă RTP
Timor fragilĂssimo e distante
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanha“SĂąndalo flor bĂșfalo montanha
Cantos danças ritos
E a pureza dos gestos ancestrais”Em frente ao pasmo atento das crianças
Assim contava o poeta Rui Cinatti
Sentado no chĂŁo
Naquela noite em que voltara da viagemTimor
Dever que nĂŁo foi cumprido e que por isso dĂłiDepois vieram notĂcias desgarradas
Raras e confusas
ViolĂȘncias mortes crueldade
E anos apĂłs ano
Ia crescendo sempre a atrocidade
E dia a dia – espanto prodĂgio assombro –
Cresceu a valentia
Do povo e da guerrilha
Evanescente nas brumas da montanhaTimor cercado por um bruto silĂȘncio
Mais pesado e mais espesso do que o muro
De Berlim que foi sempre falado
Porque nĂŁo era um muro mas um cerco
Que por segundo cerco era cercadoO cerco da surdez dos consumistas
TĂŁo cheios de jornais e de notĂciasMas como se fosse o milagre pedido
Pelo rio da prece ao som das balas
As imagens do massacre foram salvas
As imagens romperam os cercos do silĂȘncio
Irromperam nos Ă©crans e os surdos viram
A evidĂȘncia nua das imagens
De Longe Te Hei-de Amar
De longe te hei-de amar
– da tranquila distĂąncia
em que o amor Ă© saudade
e o desejo, constĂąncia.Do divino lugar
onde o bem da existĂȘncia
Ă© ser eternidade
e parecer ausĂȘncia.Quem precisa explicar
o momento e a fragrĂąncia
da Rosa, que persuade
sem nenhuma arrogĂąncia?E, no fundo do mar,
a Estrela, sem violĂȘncia,
cumpre a sua verdade,
alheia Ă transparĂȘncia.
Os Doentes SĂŁo o Maior Perigo da Humanidade
Se tĂŁo normal Ă© o homem em estado morboso, tanto mais de devem estimar os raros exemplos de potĂȘncia fĂsica e corpural, os acidentes felizes da espĂ©cie humana, e tanto mais devem ser preservados do ar infecto os seres robustos. Faz-se assim ?…
Os doentes sĂŁo o maior perigo para os sĂŁos; daqueles vĂȘm todos os males. JĂĄ se reparou suficientemente nisto?… Decerto se nĂŁo deve desejar que diminua a violĂȘncia entre os homens; porque esta violĂȘncia obriga os homens a serem fortes, e mantĂ©m na sua integridade o tipo do homem robusto. O temĂvel e desastroso Ă© o grande tĂ©dio do homem e a sua grande compaixĂŁo. Se algum dia estes elementos se unirem, darĂŁo ĂĄ luz irremissivelmente a monstruosa «Ășltima» vontade, a sua vontade do nada, o niilismo.
E efectivamente tudo estĂĄ jĂĄ preparado para este fim. Os que tĂȘm olhos, ouvidos, nariz, percebem por todos os lados a atmosfera de um manicĂłmio e de um hospital, em todas as partes do mundo civilizado, europeizado. Os doentes sĂŁo o maior perigo da humanidade; nĂŁo os maus, nĂŁo as «feras de rapina». Os desgraçados, os vencidos, os impotentes, os fracos sĂŁo os que minam a vida e envenenam e destroem a nossa confiança.
O amor fĂsico Ă© impensĂĄvel sem violĂȘncia.
Romances de luxĂșria e violĂȘncia, que se supĂ”em modernos, sĂŁo plagiados do Antigo Testamento.
Perpetuar o SilĂȘncio
JĂĄ nada hĂĄ de inofensivo. As pequenas alegrias, as manifestaçÔes da vida que parecem isentas da responsabilidade do pensamento nĂŁo sĂł tĂȘm um momento de obstinada estupidez, de autocegueira insensĂvel, mas entram tambĂ©m imediatamente ao serviço da sua extrema oposição.
AtĂ© a ĂĄrvore que floresce mente no instante em que se percepciona o seu florescer sem a sombra do espanto; atĂ© o “como Ă© belo!” inocente se converte em desculpa da afronta da vida, que Ă© diferente, e jĂĄ nĂŁo hĂĄ beleza nem consolação alguma excepto no olhar que, ao virar-se para o horror, o defronta e, na consciĂȘncia nĂŁo atenuada da negatividade, afirma a possibilidade do melhor. Ă aconselhĂĄvel a desconfiança perante todo o lhano, o espontĂąneo, em face de todo o deixa-andar que encerre docilidade frente Ă prepotĂȘncia do existente.
O malevolente subsentido do conforto que, outrora, se limitava ao brinde da jovialidade, jĂĄ hĂĄ muito adquiriu sentimentos mais amistosos. O diĂĄlogo ocasional com o homem no combĂłio, que, para nĂŁo desembocar em disputa, consente apenas numas quantas frases a cujo respeito se sabe que nĂŁo terminarĂŁo em homicĂdio, Ă© jĂĄ um elemento delator; nenhum pensamento Ă© imune Ă sua comunicação, e basta jĂĄ expressĂĄ-lo num falso lugar e num falso acordo para minar a sua verdade.
Onde acaba o amor tĂȘm inĂcio o poder, a violĂȘncia e o terror
Dizemos bom aquele que nĂŁo pratica a violĂȘncia contra si prĂłprio, mas tambĂ©m dizemos bom o herĂłi, que triunfa de si mesmo.